Neste mês de maio, completa 40 anos de um ano que entrou para a História Mundial. Em 1968, movimentos sociais, artísticos e culturais em geral abriram fogo, ou melhor: pedras e molotov contra a opressão de vários governos. A muvuca começou na França, com os estudantes exigindo o fim da burocracia nas universidades e mais liberdade sexual (que estudantes do mesmo sexo pudessem dividir os quartos acadêmicos). Logo, os estudantes ganharam o apoio dos trabalhadores, que chegaram a entrar em greve com 2/3 da categoria cruzando os braços por melhores salários. Nos EUA a resistência contra o racismo e contra a guerra também levava inúmeros movimentos para as ruas.
A “subversão” que precisava ser contida, e que aos olhos dos militares no Brasil também era influência dos “comunistas”, pressionou o Estado a ponto deste refletir sobre sua estratégia de governo e chegar na conclusão de que o AI-5 era a melhor solução, ou seja, a “linha dura” para conter os movimentos sociais e combater o mal vermelho. Cultura e arte então, não apenas se relacionam entre si, mas surgem como faces, imagens da luta política travada pela disputa por liberdade dos trabalhadores, juventude, artistas, mulheres, intelectuais, e de outro lado aqueles que acreditavam que o futuro residia no modelo econômico da ditadura do capital, que por sua vez usava as armas para se manter. No Mundo e no Brasil, a arte e a cultura cumprem papel determinante na resistência dos movimento de maio de 68.
Na literatura, foram apreendidas no Brasil obras como A História Nova do Brasil, coordenada por Nelson Werneck Sodré, a coleção Cadernos Do Povo Brasileiro, e outras. Mesmo assim, obras como O Ato e o Fato de Carlos Heitor Cony, que traziam críticas e sátiras sobre o período, tiveram grande vendagem. No teatro, o TBC (Teatro Brasileiro de Comédia), tinha com grande expressão as peças Arena Conta Zumbi, Arena conta Tiradentes, e Liberdade, liberdade. Glauber Rocha chamou o Cinema Novo de “uma câmera no ombro e uma idéia na cabeça”, e quem ainda não viu Deus e o Diabo na Terra do Sol? Tá no youtube.
Mas porque, e cabe mesmo perguntar, grande parte da mídia boicota este aniversário? Talvez, e dizemos talvez porque aqui não temos a pretensão de ser os donos da verdade, mas talvez mesmo, pode ser por conta da própria atualidade de 68. 2008 não foi o ano em que Martin Luther King morreu, mas atualmente a corte estadunidense mantém preso e condenado à morte um jornalista negro chamado Mumia Abul Jamal que já provou sua inocência na década de 90. Porque? Não seria atual a luta contra o racismo? E a guerra? O Vietnã acabou. Mas e o Iraque? E o genocídio cometido pelo governo dos EUA pelo controle do petróleo? Tantas questões…
Quem nos dera ter os Mutantes para cantar neste momento É proibido proibir, e também os Beatles para lançar Revolution. Mas acontece que hoje, lutamos basicamente por muitas coisas parecidas, então pra que comemorar um passado que se quer esquecer? Acontece, que maio foi uma fogueira acesa, que com anos queimou brasa, e hoje podemos sentir suas cinzas no ar. Mas as mesmas cinzas trazem um vento quente, que dá indícios de fogo, que a grande mídia não quer dizer que existe.
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