O ser humano tem o monopólio da ciência e tecnologia. Modificou a topografia, geologia, clima e a existência de todos os outros seres vivos do planeta Terra. Sem discutir nesse momento as diferenças entre os grupos humanos na aquisição e fruição das informações e sim considerando humanos e não humanos como seres contrapostos, essa contraposição é o núcleo de crítica desse texto que abordará sumariamente acerca da ética, relação de dominação e antropocentrismo.

O que entendemos por ética e como a aplicamos? É no bojo dessa discussão que podemos visualizar o lastro da dominação a ser questionada e combatida.

Ainda que sem a profundidade de comparações filosóficas, sabemos que a Ética nos serve para delimitarmos o comportamento social e individual, contrastando o que seria bem e mal, elencando as condutas mais comuns e importantes e elegendo as que nos permitem manter o convívio em equilíbrio.

Na História contemporânea podemos observar a luta contra as discriminações de ordem étnica e de gêneros. Combatemos os preconceitos sobre a essência do outro, ou seja, é impensável admitir o racismo, ou o sexismo como razoáveis pois eles são, conforme nossa construção ética atual, exemplos de diferenciação que visa à dominação de grupos. Tais grupos, na ética da discriminação negativa, são desvalorizados e, assim, facilmente dominados, manipulados.

Felizmente a humanidade já tem condições de questionar as discriminações negativas – que se contrapõem às discriminações positivas, que visam à equalização entre grupos diferentes garantindo-lhes a fruição de direitos, exemplo das quotas em concursos e vestibulares para portadores de necessidades especiais e afrodescendentes.

O ser humano, entretanto, quando considerado em relação às outras formas de vida, se coloca em outro status de obrigações e direitos. A relação do Homem com a Natureza baseia-se no antropocentrismo. O homem está no centro da vida e todos os outros seres são mantidos ou respeitados conforme a utilidade para a manutenção da vida humana.

Em relação aos animais, por exemplo, o ser humano se mantém como senhor, proprietário e usufrutuário de suas energias, beleza, afeto e vida. Os animais são a base da nossa vida confortável, mas nada ou quase nada recebem em troca. Os animais de estimação são tratados “como se fossem da família”. Mas paralelamente ao sustento desses seres que, também são privados de sua vida mais natural, outros seres animais são sacrificados depois de sofrerem crueldades: consumo da carne e derivados, testes laboratoriais, divertimentos cruéis como rodeios, touradas e vaquejadas, circos, uso de animais para tração e transporte e a manutenção de animais em convívio com o homem. Esse comportamento tem um nome: ESPECISMO.

Da mesma forma que o racismo, o machismo e a discriminação econômico social servem à uma determinada classe humana, representada pela figura masculina e anglo saxã, o especismo serve à humanidade para sua existência. Uma existência fulcrada sempre na exploração, na mercantilização da vida. Há uma escala de dominação onde homens e mulheres são dominados por homens mais poderosos e os animais o são por todos os seres humanos.

Quanto ao meio ambiente, a exploração desmesurada dos recursos naturais (notem que o termo “recurso” provém da economia) nos promete um futuro sem muitos horizontes pois as alterações antrópicas no meio natural já resultam, se não em catástrofes ambientais, em diminuição da fruição dos elementos naturais como a água, que será um dos mais escassos e o solo, que resulta a cada dia mais pobre e erodido.

A “domesticação” de seres livres, sejam eles humanos ou não, serve apenas para nos manter escravos de necessidades forjadas. O domínio da natureza pela tecnologia, relembrando a idéia de Francis Bacon, de “que a ciência é poder”, que o crescimento do saber só fez aumentar a possibilidade do homem de dominar a natureza e os outros homens1, acaso resolveu os reais problemas da existência humana?

A tecnologia é boa e desejável. Nos casos onde ela é oferecida democraticamente, melhora em muito a qualidade de vida da humanidade, exemplo das vacinas contra poliomelite e varíola. E por esses dois exemplos depreendemos que o problema da tecnologia são os propósitos da sua criação. Devemos aprimorar nossa ética, tornando-a abrangente a todas as formas de vida, logo, adotando a ética biocêntrica.

Enquanto o ser humano não buscar a libertação, questionando suas relações afetivas com outros semelhantes e com os não humanos, viverá em busca de uma solução ilusória para as várias desigualdades. Ou seja, nossos desejos, medos, desafetos ou carências precisam de uma solução sem mais exploração da vida e do afeto que os animais nos proporcionam, precisamos nos resolver conosco.

A vida estabelecida atrás de muralhas não flui. É como o represamento de águas límpidas que alimentariam vastos campos. As águas represadas atrás das muralhas se tornam pestilentas, tal qual nosso modelo atual de existência humana.

1 BOBBIO, Norberto. A Era dos Direitos. Editora Elsevier/ Campus, Rio de Janeiro; 2004: pág. 229.


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