No Brasil, o aumento nos preços dos alimentos observado nos últimos anos atingiu, sobretudo, as camadas mais pobres da população e, apesar de colocá-las em situação de insegurança alimentar, não gerou conflitos civis como os ocorrido em outros países: Haiti, Egito, Indonésia e Senegal. Em parte, a ausência de protestos em nosso país pode ser explicado pela existência de vários projetos assistencialistas que amenizam o problema, como no caso do Programa Bolsa Família. Aqui, apesar da histórica desigualdade social e da pobreza gerada pelo desenvolvimento desigual de um país colonizado sob o estigma da exploração mercantil européia e, nas últimas décadas, aprofundada pela intensa submissão ao neoliberalismo, as discussões sobre a fome global nos chegam mais através do construto proporcionado pela mídia, com base na discussão internacional sobre a fome, à qual o próprio governo brasileiro está inserido.
A partir desta perspectiva, percebemos inúmeras leituras sobre as causas da fome no mundo. Uma das principais causas da fome apontada pela mídia seria a produção de biocombustíveis. Um exemplo é a recente afirmação de Jacques Diouf, diretor geral da FAO[1], que disse: “o resultado é que quase 100 milhões de toneladas de cereais foram subtraídas aos mercados de alimentos para destinar-se à satisfação de necessidades energéticas”.[2]
Desde que o Banco Mundial e outros organismos têm colocado a culpa pela fome na produção de etanol, o presidente Lula tem rebatido as críticas lembrando que os EUA também produzem biocombustíveis e que, inclusive, oferecem altos subsídios para os seus agricultores dificultando, assim, que a produção de etanol de outros países possa contribuir para o desenvolvimento dos pequenos proprietários. Segundo reportagem de Alan Beatiie, do Financial Times, os EUA propuseram uma medida na pretensão de reduzir os subsídios agrícolas[3]. Entretanto, para o governo brasileiro esta redução seria insuficiente. Segundo a revista Veja a produção de etanol dificilmente prejudicaria a produção de alimentos no mundo, a não ser que os países utilizassem a produção agrícola com fins energéticos em detrimento dos alimentos. Além disso, no momento, o mundo produz mais alimento do que consome. [4]
A mesma revista Veja, e no mesmo especial, afirma que a “demanda cresce, o clima atrapalha e o preço sobe”. Dentre as causas do aumento dos preços dos alimentos estariam o aumento do consumo da carne pelos chineses (para se produzir um quilo de carne bovina são necessários cerca de oito quilos de grãos) e as secas na Austrália. Lula também já havia utilizado o mesmo argumento.
De forma interessante, parte dos movimentos sociais vinculados à “via campesina” também lembram que o acordo sobre o etanol assinado por Bush e Lula traz sérios problemas como a monocultura, destruindo a agricultura familiar[5].
[1] Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação ( FAO). Segundo Jacques Chonchol no artigo A Soberania alimentar, a FAO teria sido criada no fim da guerra, em 1945, quando Roosevelt convocou uma reunião com 44 países para refletir sobre a questão da fome. IN: Estudos Avançados. São Paulo, 2005, vol. 19, n.º 55. Disponível em www. scielo.br. Acesso em 25/09/2008.
[2] Reportagem “Biocombustíveis privam mundo de 100 milhões de toneladas, diz FAO”. Folha de São Paulo (21/07/08).
[3] Estados Unidos pretendem reduzir limite de subsídio agrícola para US$ 15 bilhões. Alan Beattie. Financial Times (23/07/08)
[4] Especial “Biocombustíveis e alimentos”. Revista Veja. Abril de 2008.
[5] MITTAL, Anuradha; MORENO, Camila. A aliança do Etanol: ameaça à soberania alimentar e energética. Disponível em www.mst.org.br. Acesso em 25/09/2008.
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