* Eu já havia publicado este texto anteriormente, no mês de agosto, pelo OMC da UNIOESTE. Entretanto, creio que com esta crise financeira que se abre nestes tempos imediatos, novos casos de corrupção irão ser descortinados. Então creio que esta reflexão se faz em alguma medida atual. Assim espero, e talvez infelizmente, posto que a corrupção é um mal que nunca pode deixar de ser combatido. Boa leitura!

 

Em reportagem da BBC, o jornalista Caio Blinder lembra que “Em Nova York, é a Wall Street. Em Washington, é a K Street, a rua por onde trafegam os lobistas.”[iii]. Ele se refere a um caso de corrupção que poderia estar envolvendo mais de 300 congressistas estadunidenses. No momento à que se diz respeito o texto – o das eleições de 2006 – a BBC cita que “o comitê de reeleição de Bush anunciou que está doando para a caridade 6 mil dólares que recebeu do superlobista na campanha”. Vale lembrar que a primeira eleição de George Bush já foi envolta em acusações de corrupção. A partir de alguns elementos como estes, fica evidente que a corrupção atinge publicamente instituições caracterizadas em parte pela sociedade como “solidificadas”. Quantas vezes já escutamos que o governo e a política norte-americana são um exemplo para todo o mundo? Mas o que dizem os organismos internacionais, aqueles aos quais o próprio governo estadunidense compõe?

 

            Segundo o Banco Mundial[iv], nos países onde a corrupção é mais acentuada há uma queda de investimentos, diminuindo drasticamente a arrecadação destas nações. A ONU chegou a realizar uma “Convenção contra a Corrupção”, que no preâmbulo afirma estarem:

 

 

“preocupados pela gravidade dos problemas e as ameaças, que estabelecem a corrupção, para a estabilidade e segurança das sociedades, ao socavar as instituições e os valores da democracia, da ética e da justiça e ao comprometer o desenvolvimento sustentável e o império da lei”[v].

 

 

            É comum ouvirmos que o Brasil é um país onde a corrupção é expoente. Mas será que outros países estão ilesos a escândalos que envolvem políticos e empresários no mal trato do dinheiro e da coisa pública? Ask Why? Ou seja, por quê?

 

 

            O caso Enron

 

            Alex Gibney trouxe na forma do documentário Enron – Os Mais espertos da sala[vi], uma amostra de como empresas podem, a partir de manipulações contábeis e esquemas envolvendo grandes políticos, usar a estrutura do Estado em benefício próprio.

 

            A Enron foi uma empresa texana criada nos anos 80, que utilizando mais tarde o slogan “Ask Why?”, ou seja, “por quê?”, falsificou projeções financeiras com pretensas tecnologias que nunca existiram. Além disto, a proximidade da empresa Enron com políticos como George Bush, facilitou a contratação de seus serviços pelo governo, como no mentiroso blecaute na Califórnia em 2001. A empresa, que teve ações entre as mais valorizadas da bolsa norte-americana, faliu deixando centenas de trabalhadores na rua, enquanto os seus “mais espertos da sala”, em boa parte saíram em grande estilo, pois enquanto criavam um valor irreal para as ações da empresa, eles mesmos vendiam as suas, por milhões e milhões de dólares.

 

 

 

            Corrupção e Mercados

 

            Em reportagem do The New York Times de 21/07/08, Peter S. Goodman destacou que os norte-americanos estão tomando mais empréstimos do que podem pagar, e colocando assim suas hipotecas em jogo. Como o próprio jornalista diz, “Agora está chegando o dia da prestação de contas”[vii]. A questão a que se refere o jornal trata das hipotecas imobiliárias, chamadas também de “subprimes”. Ai está outra relação entre economia e política que já aponta icebergs de corrupção. Um deles, e publicamente escancarado, é o auxílio do governo a bancos que teoricamente “precisam de dinheiro”, mas que por outro lado gastam, como o próprio jornal reconhece, “oceanos”. Segundo o jornalista “Onde os bancos vão captar as gigantescas somas necessárias para repor o capital que eles aparentemente perderam? E o que acontecerá se não conseguirem?”. A resposta é mostrada pela mídia quase que diariamente quando ouvimos falar em “recessão”. Colada à questão, está a alta dos alimentos e as inflações. E o que quer dizer tudo isso? Quer dizer que para salvar empresas, o Estado injeta financeiramente a sua ajuda, mas não para tabelar os preços dos alimentos ou ajudar a população pagando seus empréstimos, mas sim para dar dinheiro a este sistema privado, em seu “salvamento”.

 

            Tudo isto não é novidade. O governo sair em defesa de grandes corporações e do mercado é uma das orientações do Consenso de Washington; o mesmo Estado que não deve interferir em questões da liberalização econômica. Segundo o lingüista Noam Chomsky, no livro O lucro ou as pessoas?:

 

 

 

O Consenso [neoliberal] de Washington é um conjunto de princípios orientados para o mercado, traçados pelo governo dos Estados Unidos e pelas instituições financeiras internacionais que ele controla e por eles mesmos implementados de formas diversas (…). Os “grandes arquitetos” do Consenso [neoliberal] de Washington são os senhores da economia privada, em geral empresas gigantescas que controlam a maior parte da economia internacional e tem meios de ditar a formulação de políticas e a estruturação do pensamento e da opinião. Os Estados Unidos tem um papel especial nesse sistema.[viii]

 

 

 

            Abrimos pois esta discussão, refletindo sobre a idéia de que a corrupção está também intimamente ligada às questões da relação entre Estado e Mercado, principalmente quando o primeiro está submisso ao segundo; ou seja, dentro das regras do lucro. Não somente no Brasil a corrupção atinge graus elevados com membros do PT e com seus “valériodutos”, mas também nos EUA na relação entre George Bush e empresas financiadoras da sua campanha, como no caso da Enron.

 

 

* Este texto foi publicado originalmente no Laboratório Observatório do Mundo Contemporâneo da Universidade Estadual do Oeste do Paraná.

Paraná.

 

[iii] Reportagem “Escândalo de corrupção cresce nos EUA e preocupa republicanos” (BBC, 04/01/2006), Nova York), retirada do site da BBC em 15/07/2008. Link:

 

http://www.bbc.co.uk/portuguese/reporterbbc/story/2006/01/060104_lobbyeuaanalisecb.shtml

 

[iv] Informações retiradas da reportagem “Corrupção produz pobreza: estudos mostram que maracutaias devastador sobre o desenvolvimento” de Eduardo Salgado. (VEJA, 27/11/02) em 15/07/2008. Link:  http://veja.abril.uol.com.br/idade/exclusivo/271102/p_054.html

 

[v] Convenção da ONU Contra a Corrupção. Laboratório do Tempo Presente da UFRJ. Retirado do site 15/07/2008. Link:

 

http://www.tempopresente.org/index.php?option=com_content&task=view&id=818&Itemid=82

 

[vi] Enron: The Smartest Guys in the Room EUA, 2005, 109 min Documentário. Link para o Trailer: http://www.omelete.com.br/superomelete/filmes/paginas_db/enron.asp

 

[vii] Reportagem “O que temos à frente: alguns anos difíceis ou uma década ruim?”. The New York Times 21/07/2008. Retirada do site em 27/07/2008. Link:

 

http://noticias.uol.com.br/midiaglobal/nytimes/

 

[viii] CHOMSKY, N. O lucro ou as pessoas: neoliberalismo e ordem global. 4 ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2004.


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