O fim do Fim da História? Sobre o eixo da atual crise financeira.[1]

O termo “bolsa” provavelmente surgiu no séculoXVI em Bruges na Bélgica, por conta de uma tradicional família, os Van Der Burse[2]. As Bolsas de Valores, desde a Baixa Idade Média – após o desenvolvimento comercial – ganharam a vida negociando mercadorias e capitais. Reside nelas o aspecto da perseguição do lucro, comprando e vendendo ações que representam frações do capital de uma empresa. Diariamente vemos pelos grandes meios de comunicação a saga das principais Bolsas do mundo e no Brasil, ainda que para a população fique obscuro o significado dos “índices”. Quem compreende a Dow Jones e a Nasdaq? O que as cotações das empresas estadunidenses ou as das de tecnologia tem a ver com a nossa sociedade? De que se trata a atual “crise” financeira e onde está sua origem?

O século XX foi palco de inúmeras crises do atual sistema econômico, o capitalismo. Segundo o historiador Eric Hobsbawm o século XX divide-se em três partes: a) A “Era da catástrofe”, com a crise da bolsa de 1929 como um de seus marcos, b) a “Era de Ouro” com grande desenvolvimento das forças produtivas, e por fim c) a “Era do desmoronamento” onde “as décadas de crise” seriam de um “mundo que perdeu suas referências e resvalou para a instabilidade”[3]. Entretanto, segundo o historiador Valério Arcary “Não há evidência histórica de crises econômicas sem saída para o imperialismo”, mas ressalta que “Não podemos descartar, evidentemente, que uma nova crise como a de 1929 possa ocorrer, embora o imperialismo tenha aprendido a lição histórica e venha-se prevenindo com muita prudência econômica”[4]. A atual crise que ganhou proporções a partir da perda de seus imóveis por milhares de norte-americanos, nas chamadas “subprimes”[5], tem gerado inúmeros debates. Um deles gira entorno de saber se esta é uma crise igual à de 1929. Segundo François Chesnais, a atual crise possui “características que são comparáveis à crise de 1929” e com aspectos diferentes de outras crises do capitalismo:

“nesta nova etapa, a crise vai desenvolver-se de tal modo que as primeiras e realmente brutais manifestações da crise climática mundial vão combinar-se com a crise do capital enquanto tal. Entramos numa fase em que se coloca realmente uma crise da humanidade”.[6]

A crise, que segundo Joseph Stiglitz, equivale à “queda do Muro de Berlim”[7], ganha proporção menor no entanto, na perspectiva de José Luis Fiori: “Muitos bancos e empresas seguirão quebrando, nascerão rapidamente novas regras e instituições, e haverá nos próximos meses, uma gigantesca centralização do capital financeiro, sobretudo nos EUA e na Europa”[8]. Sendo a crise em maior ou menor grau, onde está seu eixo? Quais suas características? Segundo o historiador José Menezes Gomes:

O aprofundamento da crise capitalista ao mesmo tempo em que se amplia o repasse de dinheiro público para amenizar a crise no setor financeiro deixa claro que a saída encontrada pela classe dominante para contornar a crise, na fase anterior, a fez ainda mais amplificada e se converteu numa nova fonte do endividamento público, enquanto o estado capitalista se afasta ainda mais dos chamados gastos sociais. Tudo o que foi já foi feito, todas as reformas, toda a retirada de direitos dos trabalhadores, todo o pagamento da dívida pública, em todos os países, tudo isso não foi suficiente para conter a crise.[9]

Esta crise, apesar de desdobrar-se em todo o mundo, é uma crise do próprio modelo neoliberal, haja que um dos seus princípios que ditava a “não intervenção” do Estado na economia falhou, e agora Bancos e economistas imploram pela injeção de milhões de dólares no “salvamento” de Wall Street[10]. César Benjamin lembra que “O que vemos não é um erro; mais uma vez, os Estados tentarão salvar o capitalismo da ação predatória dos capitalistas” e justifica esta ação: “as economias modernas criaram um novo conceito de riqueza. Não se trata mais de dispor de valores de uso, mas de ampliar abstrações numéricas”[11]. Podemos considerar que o eixo, ou seja, o centro desta crise é o próprio elemento essencial para funcionalidade do sistema capitalista. Esta contradição foi apontada em alguma medida por Karl Marx, e aí reside a consideração central que realizamos neste texto: apesar das seqüelas deste sistema econômico em todo o mundo (demissões em massa[12], auxílio financeiro às custas de privatizações como no caso do sistema de correio francês, e etc), a crise é global ou seu centro está a partir da especulação financeira, principalmente na Wall Street?

Francis Fukuwama, ao escrever o livro O fim da História, defendia a tese de que o sistema econômico vigente era tão perfeito, que perduraria pela sociedade como forma ideal de vida. Hobsbawm contrapõe esta visão e afirma que a atual crise financeira “pode transformar-se em uma grande depressão econômica nos EUA, dramatiza o fracasso da teologia do livre mercado global descontrolado e obriga, inclusive o governo norte-americano, a escolher ações públicas esquecidas desde os anos trinta”[13]. Ao mesmo passo que a crise coloca toda a incapacidade das “Bolsas” de “regular” o mercado, abre mais uma vez um quadro complexo também para aqueles que “viram-se obrigados, mais uma vez, a socorrer os banqueiros à custa dos seus sofrimentos”, colocando uma questão à esquerda internacional que é a de “não repetir o resgate dos financeiros”[14]. Será o fim do Fim da História? O eixo da crise se manterá ou romperá?


[1] Este texto foi publicado originalmente no Laboratório OMC da Universidade Estadual do Oeste do Paraná no mês de novembro de 2008.

[2] Burse em francês significa “Bolsa”.

[3] HOBSBAWM, Eric. A Era dos Extremos. São Paulo: Cia da História, 1995, pág 393.

[4] ARCARY, Valério. O Encontro da Revolução com a História. Sundermann, 2007. Pág 44 e 45.

[5] Ver reportagem de Daniel Gergamasco no jornal Folha de São de Paulo de 12/10/08, chamada “Proprietários perdem as casas nos EUA e vivem drama com prejuízo”.

[6] François Chesnais é economista, e este texto foi publicado no sítio eletrônico www.esquerda.net

[7] Entrevista de Joseph Stiglitz para Nahtah Gardels do jornal El País. Disponível no site www.cartamaior.com.br

[8] FIORI, José Luis. O mito do colapso americano.

[9] GOMES, José Menezes Gomes. Fase Neoliberal: Resultados e perspectivas.

[10] Segundo Ivo Lesbaupin no artigo Lições a tirar da crise econômica internacioinal: “Nos últimos 30 anos, a idéia neoloberal mais difundida, mais defendida, mais brandida, foi a de que ‘não há alternativa’ (…) Agora se reconhece publicamente, sem qualquer vergonha, que não só há alternativas, como elas são benvindas; caiu a proibição de pensar e pensar diferente, diferente do pensamento econômico único que nos foi imposto todo este tempo.”.

[11] BENJAMIN, César. Karl Marx manda lembranças. Folha de São Paulo, 20 de setembro de 2008.

[12] A Organização Internacional do Trabalho prevê mais de 20 milhões de desempregados em 2009.

[13] Entrevista / Eric Hobsbawm: a crise do capitalismo e a importância atual de Marx. Para Marcello Musto do Sin Permiso.

[14] Sociedad Latinoamericana de Economia Política y Pensamiento Critico. Buenos Aires, 23 de outubro de 2008.


  1. Stella

    gente, uma pauta muito bacana é sobre as concessões pra rádio e TV, cujas leis devem mudar: http://www.fndc.org.br/internas.php?p=noticias&cont_key=312085




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